Sou pirofóbica e termofóbica.
Tenho um medo irracional de fogo, e de coisas quentes.
Mas recentemente comecei a ganhar alguma facilidade em manusear isqueiros. Ainda não sou capaz de cozinhar fritos, mas já não me assusto quando as gotas de azeite quente do refogado me saltam para as mãos e os braços. Aprendi a reagir depressa para proteger a minha pele.
Tenho dificuldades em gastar tempo nas coisas de que gosto sem me sentir culpada. Umas das causas da minha ansiedade é achar que estou a desperdiçar esse tempo que poderia ser aplicado a desenvolver o meu potencial para skills que gostava de adquirir.
Mas recentemente comecei a aprender que o meu tempo é meu. Sabeis do que falo, aquele tempo que não nos é roubado pelo nosso patrão, aquele bocadinho que podemos controlar. Aquele bocadinho que temos quando não estamos a pensar no que é que quem depende de nós vai fazer se não fizermos alguma coisa para ajudar. Aquele bocadinho sentada à janela a olhar para o rio depois de chegar a casa, a respirar as gotas de água salobra que o vento traz de tão longe.
Tenho ansiedade quase constantemente. Tenho feridas que não fecham há meses e nem sempre tenho material esterilizado para as tratar. Metade das vezes lavo a mesma ligadura, envolvo as feridas nela, e mesmo que vá a coxear não deixo de sorrir. Não sorrir é perigoso. Pode levar a perguntas. Sabeis, como quando estais a morrer de dores menstruais mas no vosso horário tendes de ir trabalhar na mesma e toda a gente trata essa dor como se fosse equivalente a um ligeiro desconforto.
Mas ultimamente aprendi a ser amiga dessa ansiedade. Digo-lhe intimamente "sei que és minha amiga e estás preocupada comigo, mas isto não pode ser sempre assim; temos de crescer para fora da nossa zona de conforto; sei que me agrides porque não queres que eu caia nas mesmas armadilhas que te acordaram, mas temos de fazer um acordo de entendimento mútuo. Tu avisas-me, e eu tomo precauções. Não precisamos de fazer guerra dentro do meu cérebro". Descobri coisas na ciência e na natureza que ajudam a limpar e sarar essas feridas mesmo quando não tenho o material apropriado para o fazer. Descobri métodos alternativos aos que estão fora do meu orçamento. Descobri que a minha saliva ajuda. Descobri que a minha ansiedade ajuda-me a perceber qual foi o antigénio que me invadiu as feridas. Descobri que estou no processo de investigação de uma vacina.
Tenho um carinho pela ciência e pelos métodos da racionalidade. Gosto de efectuar auto-avaliações para perceber se ainda estou à procura da verdade ou se me desviei e caí para fora desse caminho seduzida pelas lanternas mágicas do meu ego que aparecem ao longe, nas árvores da floresta que estamos todos a atravessar. E vou abaixo quando me é apontado que a minha visão da verdade não é neutra.
Mas recentemente percebi que "neutralidade" não é equivalente à verdade. Descobri de que outras fontes o conhecimento pode vir. Descobri que o caminho marcado a ferros e alcatrão ajuda muita gente mas não é o único caminho. Descobri os trilhos de terra, batida por pés que são vistos como pertencentes a humanos com menos valor pelos construtores do caminho de alcatrão. E descobri uma riqueza nessa floresta a que só esses trilhos que aparentam não ir dar a lado nenhum me conseguem levar. Descobri feitiços que não nos ensinam na universidade. Feitiços que ajudam a floresta a crescer. Feitiços que me fizeram perceber que a floresta não é um inimigo para ser desbravado com caminhos de betão, mas uma área de exploração em que esta pode ser feita com os pés descalços em vez de retro-escavadoras.
Estive numa relação que me fez acreditar que eu nunca estava certa. Estive numa relação que me tirou o chão debaixo dos pés e me roubou a minha percepção da realidade. Estive numa relação que me fodeu o cérebro porque eu dizia coisas que nunca eram suficientes, porque o meu consentimento e bem estar emocional pareciam uma meta atingir e a maratona nunca acabava. De cada vez que me aproximava da meta, ele dizia ou fazia alguma coisa que me faziam perceber que claramente ainda não tinha corrido o suficiente. E nessa relação eu corria tanto que ficava cansada a ponto de morrer de exaustão e desidratação, mas como ele parecia continuar a correr incansavelmente, sempre tão perfeito, então eu tinha de conseguir aguentar o mesmo passo de corrida.
Mas percebi que ele não corria - ele movia o cenário à volta dele para dar a ilusão de que estava a correr. E percebi também que mesmo que eu não estivesse presa numa ilusão eu não precisava de correr à velocidade dele. Percebi qual era o passo de jogging que se adequava a mim.
Antes queimavam as nossas irmãs porque eram acusadas de bruxas. Antes costumavam gozar comigo por causa do meu cabelo. Diziam que eu parecia uma bruxa. Costumava chorar quando me diziam isso. Costumava odiar o meu corpo porque o médico dizia que independentemente de ter um ritmo cardíaco de desportista, níveis de colesterol mais inofensivos do que um gatinho recém-nascido e uma fisiologia saudável tinha de perder peso na mesma. Costumava chorar nos provadores das lojas porque as calças não serviam. Costumava deixar que usassem coisas que eu tinha comigo desde que nasci como arma para me magoarem e controlarem.
Mas depois percebi que a minha pirofobia e o meu cabelo não eram assim tão diferentes. Percebi que não preciso das calças das lojas, e percebi que quero perder peso porque quero vestir-me de cabelo o quanto antes e o cabelo cresce mais devagar do que eu consigo perder peso. Percebi que o meu cabelo me incrimina quanto à minha bruxaria e que isso me deixa feliz. Percebi que assim as pessoas quando olham para as minhas feridas, o meu corpo, os meus feitiços e o meu cabelo e pensam nisso vão estar certas quando virem uma bruxa, mesmo que não percebam porquê.
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